Nas últimas semanas assistimos a uma comoção mundial com o falecimento de Steve Jobs. Muito já foi escrito sobre a Apple e o seu anterior presidente, numa produção inédita de conteúdos sobre um líder da atualidade.
Considerado o pai do PC e da era digital, Jobs tem sido apelidado de mágico, génio, visionário, e comparado com gigantes da história da humanidade como foram Da Vinci, Edison e Ford.
Interessa-me hoje refletir sobre o modelo de negócio da Apple, que designarei de "Applenomics", reconhecidamente único e muito bem sucedido. Em pouco mais de 10 anos, a "Maça" de Jobs passou de uma empresa quase falida para a empresa mais valiosa do mundo. Na última sexta-feira, dia 14, a capitalização bolsista da Apple atingia USD 391 mil milhões, enquanto a Exxon-Mobil, que já foi a empresa mais valiosa do mundo e atualmente é a segunda, chegava aos USD 379 mil milhões. Julgo que há quatro elementos distintivos no modelo de negócio da Apple, no "Applenomics": 1) um CEO-estrela, 2) produtos-experiência, 3) um design-sedução e 4) uma inflação-de-desejo.
Steve Jobs foi aquilo que poderíamos chamar de CEO-estrela. "Estrela" pelo brilhantismo da sua visão inspiradora do futuro, pelo brilho diferenciado que colocava em todas as suas aparições públicas, mesmo depois de gravemente doente.
O modelo de negócio da Apple é muito feliz na forma como conseguiu transformar ‘gadgets' tecnológicos em experiências únicas. A Apple foi a primeira empresa tecnológica que conseguiu verdadeiramente fazer convergir tecnologia, arte e humanidades. Os i-produtos são mais do que a função para a qual foram concebidos, são acima de tudo uma experiência. O iPhone, por exemplo, mudou radicalmente a forma como as pessoas acedem a conteúdos na web, ouvem música ou simplesmente fazem chamadas telefónicas.
O outro elemento diferenciador da Apple é aquilo a que chamo de design-sedução. A Apple converteu-se na maior empresa de moda do mundo. O design dos seus produtos transformou a "maçã mordida" em verdadeiros objetos de desejo. Um design orgânico, simples, humano e sensorial, que seduziu consumidores pelo mundo fora.
Finalmente, o outro elemento que se destaca no "Applenomics" é a chamada inflação-de-desejo. A Apple gerou-a de forma magistral. A estratégia de lançamento de novos produtos e funcionalidades todos os 12-18 meses, criou um desejo contínuo de upgrades. Acabou de ser lançado o iPad2, que tornou obsoleto o iPad e que já abriu o apetite para o iPad3. É notável, como um produto que não existia há 2 anos atrás, criou uma necessidade e uma legião de fãs disponíveis para trocar de ‘gadget', sempre que se junta mais uma câmara ou lhe retiram uns milímetros de espessura.
Miguel Setas
Diário Económico 18/10/2011